II Consulta de Teologia e Culturas
Afro-americanas e Caribenhas

São Paulo, 7-11 de novembro de 1994

Oficina 5

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO,
BÍBLIA E COMUNIDADES NEGRAS


Não pretendemos aqui, neste pequeno texto, dizer uma palavra final sobre a questão da Bíblia e das comunidades negras. Mas sim abrir a discussão para que se possa avançar nesta reflexão. Trataremos, pois, de alguns aspectos que são resultado de experiências, discussões e práticas, como negras e negros. Muitas problemáticas aqui colocadas, de uma maneira o de outra, já foram abertas para ser vistas e refletidas, portanto reabriremos a reflexão a partir da relativização da Bíblia e das culturas; tratamos a Bíblia como Palavra- segunda e não, como muitos interpretam, sendo a única palavra de Deus; como uma das experiências de fé entre outras, em particular, a experiência de Deus do povo negro. A análise sobre a história da formação da Bíblia nos permitirá entender melhor a relativização da mesma. Finalmente, apresentaremos novas formas da experiência de Deus e alguns pressupostos a ter em conta para uma hermenêutica negra.

A partir da abordagem desses pontos, pretendemos relativizar também o chamado "trabalho científico" valorizando as experiências nascidas das comunidades negras.


1. Relativizar a Bíblia e as culturas

Reconhecemos que a hermenêutica bíblica na América Latina e no Caribe superou a leitura bíblica da eleição de uma etnia como povo de Deus, para assumir a Bíblia como surgida da experiência concreta de fé de marginalizados e marginalizadas. A partir desta nova leitura, se descobre na Bíblia que o critério para participar deste povo não é a pertença a uma etnia, mas a uma categoria social de excluídos e excluídas.

A Bíblia relata a manifestação de Deus como libertador na cotidianidade dos oprimidos e oprimidas, sem importar sua etnia, mas sim sua situação existencial de opressão e exclusão. É um Deus que escuta e atua junto com elas e eles na transformação da história (Ex. 3,7-10) e não está de acordo com su marginalização e exclusão.

Este é o fio condutor que atravessa toda a Bíblia, desde o Antigo até o Novo Testamento, apesar das contradições nela presentes que são fruto dos conflitos dos diversos grupos que participaram de sua elaboração.

A história bíblica estava intimamente ligada à vida e à cultura do povo hebreu e portanto fazia parte da expressão religiosa do mesmo. Posteriormente, ela é considerada como sendo um escrito "revelado por Deus", e portanto "escrito sagrado", por algumas religiões oriundas do judaísmo, como o cristianismo (século I) e o islamismo (século VI).

Contudo, foi a igreja cristã que definiu a Bíblia como "palavra de Deus" e determinou os cânones. A canonização destes livros foi formada através de eliminação, e não por adição, de manuscritos. Desta forma constatamos vários manuscritos de autores "anônimos" que pelo fato de não atenderem aos critérios do conhecimento estabelecido pela igreja, por exemplo, a apostolicidade, foram considerados como escritos apócrifos, deixando de fora a experiência de muitas comunidades.

Desta forma constatamos que a exclusão de outras experiências religiosas na formação da Bíblia nos possibilita hoje o buscar novos paradigmas onde a Bíblia, de acordo com a experiência das comunidades negras, pode estar em segundo plano.


2. Critérios para a relativização

Isso significa, em primeiro lugar, que a Bíblia não deve ser entendida como "a palavra de Deus" por excelência, nem a história de libertação do povo que ali se narra como a única experiência de Deus. Também não como a primeira palavra. Como expressou um biblista: "antes da Bíblia já existia a vida... então, o primeiro é a vida". A Bíblia se torna então momento segundo, cobrando importância na medida em que consegue dialogar com a realidade do povo negro. Dentro das próprias culturas, temos que fazer uma releitura dos símbolos e das práticas de vida. Consideramos que também as culturas devem ser relativizadas para não cair na idealização das mesmas, já que do mesmo modo que na Bíblia, nem tudo é libertador nelas. O critério para esta relativização, tanto da Bíblia como das culturas é a VIDA. Quando a proposta, tanto na Bíblia como nas culturas, é a luta pela vida, então poderemos afirmar que expressam PALAVRA DE DEUS.


3. Novas formas de experiência de Deus

Consideramos que não há uma só experiência de Deus. Nas práticas de fé, nas várias manifestações religiosas, na vida cotidiana, no enfrentamento com uma sociedade de exclusão, há também lugares de experiência de Deus. Um Deus que não só se revela como pai, mas também como mãe, como terra, como irmã e irmão, como amiga e amigo, um Deus que come e se faz comida, dança, festeja, celebra a vida e luta, se manifesta na natureza e na vida simbólica. É um Deus que também é mulher negra, criança, corporeidade, pão sustentador. Esta maneira, muito rica e simples, de viver e expressar as experiências de Deus, nos ensina a não absolutizar a experiência cristã como única experiência de Deus.


4. Pressupostos para uma hermenêutica negra

Traçar uma hermenêutica bíblica negra não é uma tarefa fácil. Portanto, o que aqui colocamos são alguns pressupostos, que partem de nossas experiências de releitura bíblica e trabalho popular com as comunidades negras .

Uma hermenêutica bíblica a partir das realidades do povo negro exige um enfrentamento com as eclesiologias tradicionais na busca de novas maneiras de ser igreja, com uma cristologia que historicamente tem sido construída a partir de uma ideologia branca e masculina. Com efeito, este modelo de cristologia, onde a pessoa de Jesus Cristo é o único pressuposto da revelação, com uma liturgia que não leva em conta as manifestações religiosas do povo negro e que ignora suas expressões corporais, sua mística, e suas tradições míticas, considera como único ponto de partida para a celebração os pressupostos ocidentais.

A leitura negra da Bíblia exige um posicionamento político. Não se trata de ser negro o negra para ler a Bíblia desde nossa realidade. A hermenêutica negra não pode ser entendida como problema de cor da pele, mas como uma causa política. Assumir a causa negra é assumir um processo de libertação que implique em transformações sociais radicais onde todas e todos possamos participar com nossas particularidades culturais e nossas contribuições fundamentais para uma sociedade que não discrimine nem marginalize a causa do sexo, a idade, a raça, a opção sexual.


Palavras finais

Levando em conta a experiência dos povos negros percebemos que a Bíblia somente tem sentido se legitima a luta pela vida e os valores culturais das comunidades negras da América Latina e do Caribe.


Participantes da Oficina 5

Nancy Cardoso Pereira (Coord.)
Betty Ruth Lozano Lerma
Damásio Rodrigues da Anunciacão
Ezequiel Luiz de Andrade
Gildo Lyone Oliveira
Maria Cristina Ventura
Wilmar Varjão Gama




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