DENÚNCIA DE RACISMO

Comentando o fato


Recebi um convite para dar 3 palestras em Caxias do Sul - RS - , no período de 1 a 4/12/97. Iria falar sobre o tema das relações raciais e pensamento negro na educação. Seriam 3 encontros amplos com professores do 1º grau (1º dia ), do 2º grau (2º dia), e, no último dia, eu falaria para professores universitários e alunos dos cursos de pedagogia . O convite partiu do movimento negro de lá, da Prefeitura e Câmara de Vereadores. Foi um compromisso assumido há pelo menos três meses! Estava tudo certo. Na verdade, eu estava indo para Porto Alegre, com tudo pago, e tal. Simplesmente, costuma ocorrer nessas viagens, que o pessoal fica sabendo que a gente está no Estado e fica querendo tomar uma carona e pedindo para a gente atender outros municípios. Eu sempre procuro atender. Dá mais trabalho, fico mais cansada, são mais falas para produzir, etc, mas tem valido a pena, pela ampliação do trabalho. Desta vez, atendi também o convite de S. Leopoldo, um município próximo à capital. E depois de Caxias, ainda tinha uma outra palestra numa cidade que dista 4 horas de carro de lá. Portanto, cumpri os compromissos iniciais, e parti para a etapa de Caxias. Qual não foi minha surpresa ao chegar na cidade? Não haviam programado nada, nem mesmo o meu hotel estava reservado. E o articulador do movimento negro - que ao que parece, foi também engolido pelos acontecimentos - ficou tão estático quanto eu com o inusitado da situação. Daí, levaram-me à delegacia de ensino onde havia um professor que fazia parte da mobilização. E ele, no diálogo que teve comigo deixou claro que não mobilizara os profs. Mostrou-se, ainda, incrédulo diante do meu currículo, e falava o tempo todo em colocar "algumas crianças do ensino primário para me ouvir". Eu insistia dizendo que devia haver um engano, pois a minha produção era dirigida ao pessoal docente. E ele sabia, pois eu enviara o meu currículo antes, como me haviam solicitado. Por outro lado, ninguém explicava como é que não haviam organizado as 3 palestras. Levaram-me, então para o hotel, e mandaram que eu aguardasse, enquanto eles iam "tentar mobilizar" os professores. É claro, que entendi tudo, e minha vontade foi retornar na hora. Como é que eles, que tiveram 3 meses para articular o público, e nada fizeram , iam juntar o pessoal em 2 dias?? Fiquei trancada no hotel nos dias 1 e 2 , sem receber nenhum retorno ou ligação. Nem mesmo um pedido oficial de desculpas pelo incidente. No dia 2, à noite, segundo constava da programação oficial, o movimento negro, na pessoa de quem havia se articulado comigo, iria ocupar a tribuna da Câmara para fazer um pronunciamento anti-racista. Essa pessoa soube, horas antes, que sua fala estava cancelada, sem maiores explicações.

No dia 2, à noite, percebendo que as coisas não iam ser solucionadas, e naquele abandono em que me encontrava, comecei a telefonar para os órgãos oficiais que me convidaram, exigindo um carro que me levasse de volta a Porto Alegre para que eu tomasse o avião para o Rio. Foi o que ocorreu, mas só no dia seguinte, dia 3, às 13 h, quando um carro oficial foi me apanhar no hotel. Isto depois de uma longa negociação com um sujeito arrogante e debochado.

Portanto, sofri uma demonstração do peso do racismo, pois a cidade me silenciou, sabotando a organização dos eventos em que eu iria participar. Tenho uma longa "estrada" no que tange a sofrer discriminação, mas, com certeza, esta vai ficar na história, pois jamais fui convidada oficialmente para falar em público, e não conseguir fazê-lo por causa de um boicote bem urdido como este.


Conto com vocês para darmos publicidade a este constrangimento, a esse insulto, a esse desrespeito, a essa violação que sofri (sofremos) tanto nos meus direitos de exercer minha profissão quanto nos meus direitos de exercer minha liberdade e cidadania. Porque, se os mesmos órgãos que me convidaram - ninguém lá me conhecia pessoalmente, foi a 1ª vez que viajei até lá - , e que certamente o fizeram pelo meu trabalho, por qualquer razão resolveu me desconvidar, era só telefonar cancelando. Seria mais respeitoso. Agora, me deixar chegar lá, para me fazerem esta afronta é demais.

Deixo um abraço.

Maria José Lopes da Silva
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