Tapirapé

MATEMÁTICA NA SELVA


Nossa viagem continua. Com a promessa de voltar o mais rápido possível, deixamos Panambizinho em direção a Campo Grande. De lá tomamos o ônibus em direção à Barra do Garça, para chegar próximo à Ilha do Bananal, onde vivem os Tapirapé. Este povo também renasceu das cinzas, pois há quarenta e quatro anos estava reduzido a 47 pessoas. Em 1952, as Irmãzinhas de Jesus foram morar junto a eles. Aos poucos foram se recuperando. Hoje em dia são mais de 350 pessoas. Uma das principais conquistas foi a criação da escola, motivo de nossa visita.


Levamos cinco dias para chegar até aqui. Apenas uma das Irmãzinhas está a nossa espera, pois as outras se mudaram para a antiga aldeia de Piti' itãwa, para acompanhar os mais velhos que se retiraram para o meio do mato, a fim de preservar as tradições indígenas.

Faz muito calor. É melhor tomar um banho no rio para refrescar o corpo. Depois, jantamos e vamos deitar para descansar. Uma tarefa árdua, pois os pernilongos não dão tré-gua. É preciso travar um verdadeiro combate, sem grandes resultados. Organizados em ver-dadeiros exércitos, atacam por todos os lados sem chance de defesa por nossa parte. É assim a noite inteira. O nascer do sol é acolhido com grande alívio. Caímos de novo no rio Tapirapé para um outro banho. Banho é o que mais se toma aqui, principalmente no calor... Em nossa pele, trazemos os sinais da batalha: enormes calombos avermelhados estão espa-lhados pelo corpo inteiro, produzindo uma incômoda coceira.


A ESCOLA DOS TAPIRAPÉ


Depois de tomar café, vamos conhecer a escola, onde os professores são os próprios Tapirapé. A coordenação é feita por uma professora de fora, que veio morar com eles há alguns anos. Um grande trabalho foi feito também por um casal que morou entre eles quase vinte anos, ajudando não só na montagem da escola, como também na elaboração de cartilhas na língua tapirapé e dos livros de leitura em português, que hoje são adotados por muitas escolas do Brasil.

Conversamos um pouquinho com os alunos e com os professores, pois os Tapirapé são muito tímidos. Só se entrosam depois de um tempo de convivência, ao contrário dos povos jê, que são muito comunicativos.

Isabel, a coordenadora da escola, começa a falar da noção de matemática que existe entre os Tapirapé.

- Neste ano tivemos um problema sério, pois as turmas de terceira e quarta série, que estudam juntas, tinham um número ímpar de alunos. Eles não queriam começar as aulas, pois achavam que estava faltando alguém. Os Tapirapé têm dificuldade de aceitar o ímpar, pois a unidade para eles não é o um e sim o dois. Todas as crianças na aldeia, até para brincar, sempre têm um companheiro e não aceitam que alguém fique sem par. Trouxeram então o irmãozinho de um deles, de cinco anos, apesar da classe ser de garotos entre 10 e 13 anos.

- Será que todos os povos indígenas são assim? - pergunta Aiká.

- Não posso afirmar, pois cada povo é um mundo. No Brasil existem mais de duzentos povos indígenas, com cerca de 200 línguas e dialetos. Cada um deles tem uma cultura pró-pria. Alguns até se parecem. Certamente esta idéia de par, como unidade, deve ser comum a muitos povos de língua tupi.

Saímos da sala para não atrapalhar a aula. Isabel continua sua explicação.

- Num curso que tivemos com o professor Sebastiani, da universidade de Campinas, aprendemos que esta idéia do par se encontra também entre os chineses, que possuem o yin e o yang duas unidades que só existem juntas. Também para os chineses a base não é o um e sim o dois.

Os Tapirapé constroem suas aldeias em círculo. É uma representação do mundo, que para eles é limitado, como o círculo. A aldeia é o mundo em miniatura. Os antigos gregos tam-bém achavam que o universo era limitado e perfeito como o círculo.

- Puxa - exclama Braskuka . - Os Tapirapé têm coisas dos chineses e dos gregos? A gen-te sempre ouviu falar que os índios eram atrasados...

- Tem mais - acrescentou Isabel. - Eles sabem geometria, sem estudar!

- Uái, como é isso? - pergunta Braskuka. - Eu quero morar aqui, pois matemática não entra na minha cabeça...

- Para construir uma casa - explica Isabel, - eles fazem todo um traçado geométrico. Começam marcando no chão três pontos perpendiculares. Depois, traçam uma diagonal, que começa na altura do primeiro ponto e termina na mesma direção do terceiro ponto. Repetem a mesma operação, traçando outra diagonal, que desta vez vai do terceiro ponto até a altura do primeiro. Desse jeito, se forma um "xis". Assim, vão marcar os quatro cantos de um retângulo e seu centro. É nestes pontos que eles vão fincar as estacas das novas casas.

- Puxa, que coisa bonita! Assim a gente aprende matemática... sem esquentar a cabeça - cochicha Aiká.

Depois desta interessante aula de matemática, voltamos para a aldeia. Com as casas construídas em volta do pátio, os Tapirapé guardam parte da tradição antiga, junto com várias coisas de nossa sociedade. Com medo de perder o passado, várias famílias resolveram se mudar para a velha aldeia, que havia sido abandonada nos anos 50.