Timor Leste

PRÊMIO PARA
A DIGNIDADE
DE UM POVO


A estrela mostra o caminho para os magos à procura do "país do Nobel". Do meio de uma luta de mais de vinte anos contra o país invasor e contra o descaso internacional, a população timorense canta: "Paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade".


Laura Greenhalgh


Houve reações de espanto e incredulidade. Num mundo onde as tensões entre árabes e israelenses não dão trégua e os conflitos étnicos e raciais se espalham por toda parte, iria o Prêmio Nobel da Paz parar nas mãos de dois timorenses?!

Foi o que aconteceu. Há poucas semanas, acordamos com a inesperada notícia: Carlos Ximenes Belo, bispo de Dili, capital do Timor Leste, e José Ramos-Horta, representante do líder timorense Xanana Gusmão, haviam sido eleitos por um comitê de notáveis em Oslo, na Noruega, como os símbolos da paz no ano de 1996 - embora ambos abracem uma luta que já se estende por mais de duas décadas, em prol da auto-determinação do povo timorense. Merecidíssimo. Mas que povo é esse?, perguntaram-se muitos.

E, assim, o Timor Leste entrou no mapa, literalmente. Jornais, revistas e televisões do mundo inteiro, ao noticiarem a premiação, tiveram que acrescentar um mapinha às suas páginas e imagens, com o intuito de localizar o "país do Nobel": uma pequena ilha que flutua entre dois oceanos, o Índico e o Pacífico, já bem próxima da Austrália.

Os mapas mostraram ainda que o Timor Leste, com seus 600 mil habitantes, ocupa menos da metade dessa ilha, ou seja, uma área de 18.899 kmē, superfície inferior à de Sergipe, o menor Estado brasileiro.

Pois vem de lá não apenas um, mas os dois prêmios Nobel da Paz de 1996. Pouco importa se Ximenes Belo e Ramos-Horta dividem o valor de uma única premiação. O que conta é que eles multiplicam as esperanças dos timorenses.


ENGANO A SER DESFEITO - Muitos jornalistas têm qualificado a terra de origem dos dois Nobel da Paz como um "grotão", "um fim de mundo", "um ponto perdido no mapa". São definições apressadas, que revelam pouca informação sobre a história do Timor.

Na verdade, apesar de pequena e desconhecida, essa ilhota se interpôs na rota dos poderosos, das superpotências, dos interesses econômicos mais ferrenhos e, por isso mesmo, o seu povo vem sendo massacrado.

O domínio indonésio sobre o Timor Leste já é responsável pela morte de 310 mil pessoas, cerca de 44% da população na fase da invasão militar, ocorrida em dezembro de 1975. A ilha não era um grotão quando foi invadida. Era simplesmente um ponto estratégico.

Para entender melhor essa trama, é preciso voltar ao cenário da Guerra Fria, cenário de hostilidades permanentes entre os Estados Unidos e a então União Soviética. (No Brasil, já estávamos amordaçados por uma ditadura militar). O ano de 1975 foi atípico: marcou o avanço dos regimes de inspiração socialista no mundo, tanto na África (com os movimentos de independência de Angola, Moçambique e Etiópia), quanto na Indochina (com a chegada ao poder dos Kmer Vermelhos, no Camboja, e o triunfo comunista no Vietnã, em 30 de abril de 1975).

No Timor Leste, até então uma colônia portuguesa, o povo levava adiante o seu processo de independência, organizando forças políticas internas e montando o seu primeiro governo autônomo. Os timorenses queriam um regime democrático, distributivo, popular e, acima de tudo, livre.

Era atrevimento demais para a época. Hoje vazam informações sobre relatórios secretos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, datados daquela época, insinuando que "uma nova Cuba poderia surgir na Indonésia".

Entre outras cismas, Washington temia que os timorenses viessem a impedir a passagem dos submarinos nucleares estadunidenses pelas águas profundas do Estreito do Timor. Esses submarinos costumavam realizar manobras por ali, livres da espionagem soviética.

Ao Japão, principal investidor na Indonésia, também não agradava a presença na região de uma ilhota que semeava sonhos de liberdade, autonomia e justiça. Idem para a vizinha Austrália, de olho nos lençóis de petróleo que forram o mar territorial do Timor. Portanto, o "grotão" era um problema geopolítico seríssimo.

Num pacto silencioso, vários governos deram sinal verde para o general Suharto, ditador da Indonésia, "anexar" a ilha rebelde, transformando-a na vigésima sétima província do seu país. Ele cumpriu a tarefa à risca, com um custo humano inaceitável. Foi um verdadeiro holocausto.

Dias antes da invasão, em dezembro de 1975, o então presidente estadunidense, Gerard Ford, e seu super-secretário de Estado, Henry Kissinger, visitaram Suharto em Jacarta, capital da Indonésia. Combinaram a operação em detalhes, feita inclusive com armas estadunidenses, o que viola todos os acordos internacionais sobre zonas de conflito. Kissinger até hoje jura que os Estados Unidos não tiveram a menor participação naquela invasão militar. "O Timor nunca foi um problema significativo para a política estadunidense", disse recentemente, com o cinismo imperturbável dos eternos vencedores.

BRAVA GENTE TIMORENSE - Mas "há uma dignidade no perdedor que o vencedor não alcança", escreveu, num dia de grande inspiração, o escritor argentino Jorge Luís Borges. A frase parece ter sido lapidada em homenagem ao povo do Timor.

Hoje, passados 21 anos da invasão, os estrategistas de Suharto fazem cálculos para saber se valeu a pena tanto esforço para dominar uma gente que não se rende. Os mortos, as prisões, as torturas, a fome e as doenças que se abatem sobre os timorenses transformam-se em reserva moral, força e dignidade.

Consumada a invasão, o Timor, de fato, sumiu do mapa. De 1975 a 1978, o país esteve totalmente fechado para o mundo, o que permitiu às forças da Indonésia levar a termo a operação "terra arrasada". Além dos milhares de mortos, foram destruídas casas, escolas, plantações, tudo. Das 318 mil ovelhas da ilha em 1975, restavam 36 mil em 1979. Ou então, dos 305 mil porcos sobreviveram 27 mil, no mesmo período.

A população foi privada de mobilidade dentro e fora da ilha. Comunidades inteiras ficaram isoladas. Fecharam-se postos de trabalho para os timorenses. Mulheres, inclusive meninas, passaram (e ainda passam) por programas de esterilização. E, como se não bastasse, o povo está proibido de se expressar em português ou tetum, o dialeto mais falado. As crianças agora crescem balbuciando o bahasa indonésio, idioma do tirano sanguinário cuja foto oficial adorna as salas de aula. Enfim, é o aniquilamento de uma cultura, a prova mais cabal de que se pretende eliminar um povo da face da terra.

Mas os timorenses não desistem. Os estudantes arriscam a vida em manifestações pelas ruas de Dili, enquanto mulheres e homens resistem, armados, nas montanhas. Enfrentam como podem, e sempre que podem, as forças de ocupação. A maior parte desses insurgentes, ligados à Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), reconhece que suas famílias são o alvo preferido do exército indonésio.

Como atesta a timorense Maria Silva, em carta endereçada à primeira-ministra da Noruega, em setembro de 1995: "Hoje, a ilha de Atauro, ao norte do Timor, está repleta de prisioneiros de consciência. Milhares de detidos, mais de 80% são mulheres e crianças! Somos torturadas, estupradas, humilhadas. Tudo porque continuamos a acreditar no direito de auto-determinação da nossa gente, o povo Maubere".


XANANA VIVE, XANANA LIVRE - Cresce a resistência, cresce também a fé. Subordinados à Indonésia - um país de 200 milhões de habitantes e maioria muçulmana (80%) -, os timorenses eram minoritariamente católicos (30%) na época da invasão, mas hoje totalizam uma evidente maioria na ilha (85%). Esse aumento tem a ver com a defesa dos interesses do povo feita pela Igreja local, seja amparando as vítimas do regime, seja denunciando as atrocidades cometidas, mas, sobretudo, pressionando o Vaticano a abandonar uma cômoda posição de tolerância com os golpistas.

Acusado de semear um sentimento aintiindonésio entre os fiéis, o bispo Ximenes Belo já nem se intimida com as ameaças de morte: continua falando em português e rezando missas em tetum, numa rejeição explícita ao bahasa.

"Nós, os católicos, somos difíceis de engolir. Muitos jovens têm sido torturados para confessar o grau de envolvimento dos padres com a resistência", confessou o Prêmio Nobel da Paz recentemente, falando a uma jornalista brasileira em Lisboa.

O salesiano Carlos Filipe Ximenes Belo assumiu a diocese em 1983. No ano seguinte, foi recomendado a calar-se. Em 1987, ampliou sua rede de apoios em conferência episcopal realizada nos Estados Unidos. Dois anos mais tarde, recebia a visita do papa no Timor Leste.

Enquanto celebrava missa em Dili, João Paulo II ouvia as palavras de ordem dos estudantes, pedindo liberdade, justiça e paz - foram todos presos e torturados. Ximenes Belo então encaminhou para as Nações Unidas a proposta de um plebiscito, "para saber se o povo referenda ou não a anexação feita pela Indonésia".

As tensões foram aumentando até que, em novembro de 1991, durante ato de protesto pela morte de um trabalhador, a população foi encurralada pelo exército no Cemitério de Santa Cruz, na capital timorense. Saldo do conflito: 271 mortos, 382 feridos, 250 desaparecidos, centenas de detenções.

Meses depois, Suharto tentou dar um golpe de mestre, para recuperar a sua desgastada imagem internacional: perseguiu, prendeu e mandou julgar Xanana Gusmão, o líder maior da resistência timorense, conseguindo-lhe a prisão perpétua como condenação. Em seguida, agindo como se fosse um governante magnânimo, ordenou que os juízes baixassem a pena máxima para vinte anos. Pura pantomima. Xanana continua detido e incomunicável no Presídio de Cipinang, em Jacarta. Está pagando pelo "crime" de pretender libertar o seu povo.


TEIMOSIA E DIGNIDADE - Tanto quanto Ximenes Belo, José Ramos-Horta sabe que o Prêmio Nobel da Paz representa apenas um passo à frente no longo caminho até a paz verdadeira. Ex-guia turístico em Dili, ele foi ministro das Relações Exteriores daquele efêmero governo independente, dissolvido pelas tropas indonésias em dezembro de 1975. Perdeu três dos seus irmãos na invasão.

Exilados na Austrália, Ramos-Horta e sua mãe, dona Natalina, chamam a atenção do mundo para uma calamidade ainda muito pouco conhecida, mas que merece o repúdio de todas as nações.

Mãe e filho sabem que não haverá trégua enquanto Xanana estiver confinado. E que o seu povo não se curvará à força das armas, à pressão dos interesses econômicos, ao conluio dos países ricos. Timorenses e teimosos, são feitos da tal dignidade que o vencedor não alcança...


Depoimento

"Eles nos consideram irmãos, e nós nem sabemos que eles existem"

Irmã Vera Lúcia Canerotti, brasileira, 35 anos, é uma das poucas missionárias estrangeiras que conseguiram permissão para entrar e trabalhar no Timor Leste. A seguir, veja o depoimento desta religiosa que pôde testemunhar, de perto, a impresssionante capacidade de resistência do povo timorense.

"Demorei mais de um ano para entrar no Timor Leste, porque não me davam o visto. Finalmente, no início de 1994, consegui desembarcar em Dili e de lá fui trabalhar em uma escola de Venilate, região montanhosa no centro da ilha. Tive logo que aprender a falar o bahasa. O português está proibido. Só mesmo sussurrando palavras no ouvido das pessoas amigas...

Os indonésios até hoje dizem que os timorenses foram desvirtuados pelas leituras, em português, dos teóricos do socialismo. Daí, a censura.

No Brasil, sempre me perguntam como é que esse povo suporta tanta repressão. Digo que é a força moral que os mantém.

Os timorenses sabem que um terço da população adulta do país morreu em conflitos, nos últimos anos; que hoje não existe aldeia sem orfanato, porque é preciso recolher as crianças que ficaram sós no mundo; que não há nada para comer na ilha, além de arroz cozido em água e, quando muito, um pouco de mandioca e mamão verde; que as pessoas estão adoecendo de artrite, reumatismo, tuberculose, verminose, desnutrição aguda; que os enterros de crianças são a cruel rotina das comunidades. Como se não bastasse, o povo ainda sofre massacres, execuções e a permanente vigilância dos militares indonésios, em trajes civis. Eles vestem camisas de batik e pensam que enganam.

Pois os timorenses resistem a tudo e querem o seu líder de volta. Xanana é um mito na ilha. É a esperança da paz.

Uma doce recordação para mim?

Quando os timorenses cantavam músicas de Roberto Carlos e do Teixeirinha, ou quando falavam do futebol do Brasil. Que ironia! Eles nos consideram irmãos, e muitos de nós, brasileiros, não sabemos que esse povo existe."

(Irmã Vera vive hoje em São Paulo, trabalha numa comunidade rural e coordena o grupo "Clamor por Timor") - L.G.


LIBERDADE PARA
XANANA, JÁ!

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    XANANA GUSMÃO
    L.P. CIPINANG
    JAKARTA TIMUR
    INDONÉSIA