Pastoral dos Nômades

DE BEM COM O DIFERENTE

Quando criança, foi ensinado a ter muito medo e a odiar os ciganos. Hoje, como sacerdote e integrante da Pastoral dos Nômades, no silêncio de uma barraca, ele confessa: gostaria de ser filho desse povo.


Jorge Rocha Pierozan

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.
A minha não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.

Cecília Meireles


Manhã de sol de um mês de setembro. Eram oito as barracas, amarelas e envoltas num grande mistério.

Havia fumaça e algumas galinhas, amarradas pela perna no canto da tenda que dava para o mato. Vi grandes brincos nas mulheres (em alguns homens também) e lindos vestidos coloridos, cavalos pastando, a égua-madrinha particularmente linda. E ouro, muito ouro.

- Tem ciganos na vila!
- Ai, meu Deus! E eu que pensei que não voltariam!
- Mas parece que só ficarão por alguns dias, três ou quatro.
- Já entendi tudo. É sempre assim. Falam sempre a mesma coisa. Depois, acabam ficando vinte dias, um mês...
- E o pior é que, quando vão embora, levam as nossas galinhas.
- Só as galinhas? Antes fosse!

Tereza, minha mãe, não gostava muito de ciganos, menos ainda minha tia Carmelita. Aliás, quem em Vanini/RS gostava de ciganos, naquele início de primavera de 1971?

O que recordo é que todos tinham medo.


"ESCONDER AS GALINHAS" - "Esconder as galinhas", neste caso, significa a guarda constante de pequenos objetos, animais domésticos e também hortifrutigranjeiros. Era a vigilância atenta e implacável enquanto os ciganos estivessem na vila ou nos arredores.

Esconder as galinhas, ontem e hoje, pode significar esconder as crianças. Mas quer dizer, antes de tudo, ter medo, receio, sentir-se mal, fugir.

Esconder as galinhas é negar hospitalidade, abortar a confiança, desprezar, tratar com indiferença, excluir, duvidar sempre, "apedrejar", negar o direito à vida.

Esconder as galinhas será sempre esconder a alma.

(Pare, amigo leitor, esteja onde estiver! Se algum dia você também "escondeu as galinhas", pare por um instante a leitura e dirija uma pequena prece ao Senhor em favor de todos os ciganos falecidos. Creio que você nunca teve oportunidade de fazer isso, nunca pensou que chegaria a esse ponto: rezar pelos ciganos. Em nome deles, muito obrigado!)


"LADRÕES DE CRIANÇAS" - Ninguém gostava, mas todos toleravam. Escondiam as galinhas e toleravam.

Com as galinhas devidamente escondidas, os vaninenses negociavam com os ciganos. Compravam nobres ferraduras para cavalos e tachos que duravam muito tempo. Compravam caçarolas, facões, talheres de prata, éguas prenhas, ferramentas, cavalos, sonhos, ilusões e, algumas vezes, gato por lebre.

Para as mães e todos no colégio, essa gente estranha roubava crianças. Quem fosse louro que se cuidasse, pois o risco era maior. Houve inclusive aqueles que pensaram em tingir o cabelo por questão de segurança. Perpetuavam o medo, o horror até.

Eu também sentia muito medo dos ciganos, e não poderia ser diferente. Não queria por nada cruzar com um deles pelo caminho. Meu infeliz escrúpulo acabou se transformando em pavor, aumentado pela distância que separava minha casa do colégio, que não era pouca.

Com apenas sete anos de idade, jamais pensei em apurar o nascedouro da onda anti-cigana em qualquer lugar que fosse, tanto menos em Vanini. Não busquei também esclarecer "verdades" contadas por muitos, pois me parecia que assim tinha de ser.


"GENTE MUITO PERIGOSA" - Eles armavam suas tendas no campinho que diariamente freqüentávamos, no potreiro da Nona Ada. Às vezes, os "sem-pátria" demoravam mais de um mês, e esse era, sem dúvida, dentre os vários motivos de ódio a essa gente, o de consistência maior.

Como poderia aceitar que, com seus cachorros, cavalos, barracas, mulheres descalças e papagaios nos roubassem o campinho?

Vários planos tivemos, mas nunca apareceu, no seio da turminha da bola, alguém corajoso o suficiente para dizer o que tantas vezes ensaiamos: "Ei, seu cigano, será que o senhor não poderia armar sua barraca um pouquinho mais ali adiante, perto daquele angico? É que precisamos treinar nosso timezinho para não fazer feio nas olimpíadas do colégio".

O preconceito não estacionava. Caminhava errante pela cidadezinha, onde muito cedo as crianças aprendiam que "cigano é sempre muito perigoso".


"NÃO FOI DESTA VEZ" - Com o Setim, inventei um esporte macabro: caçar gatos. Para isso, usávamos uma lança, talvez pesada demais para nosso músculo em formação. Não matamos gato algum, mesmo que tenham sido inúmeras as tentativas.

Numa das tardes em que brincávamos de matar gatos, a avó do meu primo me questionou:

- Por que você faz isso com os pobres bichinhos? Por que gosta de vê-los sofrendo assim? Por que é tão malvado? Você gostaria de ser levado pelos ciganos e que eles também lhe fizessem sofrer dessa maneira?

Foi a a última vez que usei a lança contra indefesos gatos que apareciam pelas redondezas de minha casa!

Quando esse povo errante e sem destino ia embora, eu assistia do alto de um barraco a sua passagem, e pensava: ainda não foi desta vez que fizeram uma tremenda arruaça!

Não foi desta vez que assassinaram dezenas.

Não foi desta vez que vasculharam a cidade, roubando tudo, com metralhadoras ou facões brilhantes.

Não foi desta vez que beberam o sangue ou assaram o coração de algum vaninense.

Tampouco levaram consigo alguma criança roubada.

Não foi desta vez que os ciganos defloraram virgens ou limparam o traseiro com os documentos da prefeitura de algum município vizinho.

Não, não foi desta vez. Ainda não.


CABEÇA DE CRIANÇA - Mas o medo nem por isso diminuía. Ao contrário, sobrevivia e mendigava respostas. Será que voltariam? Será que estavam planejando para, da próxima vez - quem sabe? -, realizar tudo aquilo que nos amedrontava terrivelmente?

Se o mal estava inseparavelmente ligado a cada pessoa desse povo, por que então ficavam adiando essa fúria, escondidos em seu mistério e nos proporcionando tensão ainda maior?

Não são muito tranqüilas as noites das crianças que, precocemente, aprendem a ter medo de arruaceiros e ladrões. Essas cabecinhas deitam à espera do barulho da caravana selvagem invadindo a cidade para saquear, para não deixar pedra sobre pedra... E gritos e poeira, e tiros e mortes. Os ciganos viriam dizimar uma população inteira, principalmente as crianças de comportamento não muito correto.

Nessa época, eu sonhava em ser um corajoso policial quando completasse dezoito anos, e não passava pela minha cabeça a idéia de morrer pelas mãos de um bando de homens sem documentos, que não tomam banho, que não sabem ler nem escrever, que sabem apenas fazer tachos e manejar um facão ou revólver.

Eu resistiria, nem que fosse o único na cidade, mas resistiria!


MEDO E REZA - Numa das vezes em que os ciganos deixaram Vanini, eu estava na casa de meu tio Gregório, na capela de São Paulo. E foi bem ali que decidiram passar. Os cavalos carregavam enormes fardos. Homens e mulheres paravam nas casas para barganhar as coisas mais diversas: tachos por queijos, panelas por jóias, tapetes por galinhas.

E, por falar em galinhas, reparei quando tia Aninha recolheu todas as suas para o galinheiro, dizendo que havia muito tempo era conhecedora da fama daqueles bastardos.

Pressenti alguma desgraça próxima: seria desta vez que os ciganos me levariam? Tudo acenava afirmativamente: eu era criança, tinha olhos verdes (que eles arrancavam para pendurar em chaveiros e vender no Egito), era louro, e o comportamento não era lá essas coisas!

Escondido no paiol, tremi e rezei durante quase duas horas. Quando finalmente fui chamado pelo Laurinho - o almoço estava pronto -, agradeci ao Pai do Céu e prometi que a partir dali iria me comportar direitinho.

Foi a última vez que vi os ciganos na minha infância.


MAIS QUE GALINHAS - Muitos anos depois, fui morar com eles. Mas essa já é outra história!

Na paz sem igual desta barraca me vem à lembrança, justamente neste momento, a celebração do matrimônio entre o palhaço e a malabarista do Circo Internacional Medrano Federico Orfei. Foi em 1991, em Sorocaba/SP.

O casal estava lindo na serragem do picadeiro. Os padres Paulo e Renato, solenemente paramentados, esbanjavam alegria. Era grande a presença de câmeras, máquinas fotográficas, repórteres. Tudo maravilhoso. O circo em festa.

Após a missa, respondendo à pergunta do repórter de uma grande rede de televisão - que insistia em saber sua opinião a respeito da presença da Pastoral dos Nômades entre os parques, circos e ciganos - , Federico Orfei (Tavelerto!), o dono do circo, arrematou:

- É importante essa presença. É a primeira vez na história que alguém vem nos falar de Deus. Para dizer a verdade, os gadjé (não-ciganos) sempre nos esconderam as galinhas e, junto delas, infelizmente, também esconderam a verdade, a religião e Deus.


PRECONCEITOS TANTOS - Então, a tia Aninha e muitas outras "tias" me vieram à mente. Lembrei do povo de Vanini, do povo brasileiro. Recordei o nazismo e os 500 mil ciganos dizimados como se fossem moscas nos fornos crematórios. Vislumbrei o mundo inteiro, suas contradições, seus preconceitos tantos.

Eu cresci. Carreguei por muito tempo esse medo infame e o - mil vezes maldito - ódio ao povo cigano. Hoje, moro com eles e, permitam que eu revele, tenho uma mágoa secreta: não ter nascido cigano.

Uma rua foi aberta no potreiro da Nona Ada, casas foram construídas, e os ciganos não podem mais acampar ali. Muitos em Vanini não chegaram a conhecer o campinho, não imaginam como era o potreiro...

Hoje, à geração pós-campinho da Nona Ada, tem uma coisa que gostaria muito de pedir: não tenham em relação aos ciganos (não tenham em relação a nenhum povo) as mesmas atitudes que eu e minha época fomos ensinados a ter.


Pastoral
dos Nômades


Uma presença solidária no meio dos ciganos, nos acampamentos, e de quem trabalha em circos e parques de diversão (muitos são ciganos). É assim que os membros da Pastoral dos Nômades (PN) explicam o trabalho que vêm desenvolvendo em vários estados do país há mais de dez anos.

A maior parte dos agentes acompanha os nômades em sua própria região ou cidade. Mas tem também quem faz da itinerância um estilo de vida, convivendo com as famílias, de acampamento em acampamento.

Em ambos os casos, o objetivo é participar, juntamente com os ciganos, de momentos importantes de sua vida religiosa (festas, celebrações do batismo, do casamento e da morte), como também atuar no campo da educação, no resgate da cultura cigana e na luta contra o preconceito e a discriminação por parte dos gadjês (os não-ciganos).

A PN está ligada à Pontifícia Comissão para a Pastoral das Migrações e dos Itinerantes, com sede em Roma, e à Linha 6 (dimensão profética e transformadora) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Oficialmente, começou a ser estruturada a partir de 1984, quando, convidado pelo então bispo de Caxias do Sul/RS, Benedito Zorzi, chegou ao Brasil o sacerdote italiano Renato Rosso, que trouxe uma experiência de vários anos de trabalho com os nômades em seu país de origem. Atualmente, ele vive no Bangladesh, entre a população cigana de lá.

Segundo estimativas, são cerca de 800 mil os ciganos no Brasil. Os primeiros chegaram ainda no período colonial e faziam parte do grupo Calão, provenientes da península ibérica (Portugal e Espanha).

Mais tarde, na metade deste século, vieram os do grupo extra-ibérico, conhecidos como Rom. Esses dois grandes grupos se subdividem em vários grupos menores.


Festa cigana
na Praça de São Pedro


"El Pelé não é um ladrão. Ele é São Zeferino Giménez Malla, o patrono dos ciganos."

A profecia do juiz espanhol ao decretar a inocência do cigano Zeferino - preso por suposto roubo de cavalos - pode não ter se realizado por completo, mas falta pouco. No dia 4 de maio deste ano, o papa João Paulo II fez dele o primeiro beato cigano da história da Igreja. De beato a santo parece questão de tempo.

Foram milhares os ciganos, dos mais diferentes países, a participar da missa de beatificação. Com suas músicas, cores e alegria, eles tomaram conta da Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano, para homenagear Zeferino e pedir as suas bênçãos.

Comerciante de cavalos, nascido na Catalunha, Espanha, em 1861, são muitas as maravilhas que se contam de "El Pelé".

Religioso a toda prova, catequista embora analfabeto, amante da natureza e das crianças, costumava bater sempre à porta dos pobres da região onde morava para dividir com eles mantimentos, bondade, solidariedade. A casa dele estava sempre aberta para quem buscava o que comer, um abrigo, um gesto de misericórdia.

Em 1936, aos 75 anos de idade, durante a Guerra Civil Espanhola, tentou interceder por um sacerdote que estava sendo maltratado por milicianos. Preso, depois de quinze dias no cárcere foi levado ao cemitério da cidade e ali fuzilado, junto com outros doze condenados. Lançado numa fossa comum, seu corpo jamais foi encontrado.

"Beato Zeferino do Cavalo Branco, rogai por nós!" O padre Jorge Rocha Pierozan, 32 anos - ou padre Rocha -, da Pastoral dos Nômades no Brasil, esteve presente.

Ele escreve: "Todos os anos, no dia 4 de maio, vamos celebrar com os ciganos a festa do beato Zeferino, padroeiro de sua raça. Enquanto isso, vamos rezar para que nosso mártir seja logo canonizado e que surjam outros/as beatos/as e santos/as no meio dos grupos ciganos do mundo inteiro".