MUTIRÃO PELA VIDA:
NOVO JEITO DE LER A BÍBLIA


BÍBLIA, PALAVRA DE RESISTÊNCIA


"Ai de mim se não evangelizar".
Paulo


Às vezes escutamos que Dom Oscar Romero foi profeta ou que fulano ou a comunidade tal são realmente profetas. Mas será que essas pessoas aceitaram a missão sem pestanejar? Assumiram logo essa tarefa evangelizadora ou, pelo contrário, tiveram dúvidas, fraquejaram em momentos difíceis? E nós hoje, onde encontrarmos coragem para resistir?


A caminhada dos profetas


As comunidades gostam de refletir e celebrar a Palavra de Deus. Há um canto que reflete a caminhada profética: "Ai de mim se eu não disser a verdade que ouvi. Ai de mim seu me calar quando Deus me mandar falar". Faz referência à experiência de Jeremias e de outros profetas. Diante do chamado de Deus tentam fugir, adiar, descarregar em outra pessoa. Mas no fim, tiveram que dizer: "Ai de mim se eu não topar essa parada!".


O profeta Jeremias é chamado por Deus sendo jovem. Alias, ele se acha muito jovem, um garoto, para assumir tamanha responsabilidade. Diz que não sabe falar. Inventa coisa. Jeremias conta como foi essa luta interior e confessa: "Não teve jeito! Tentei e tentei resistir, mas tudo foi inútil. Quis esquecer tudo. Disse pra mim: "Não quero mais lembrar de Deus. Não vou falar en Nome dele". Mas que nada! Era como um fogo devorador, preso dentro dos meus ossos. Tentava segurá-lo, cansei e já não consigo mais! Por fim, cai rendido e conclui: "Foste mais forte, Senhor! Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir! Derrubaste-me, e venceste!" (Jr 20,7-18).


Lendo o desabafo de Jeremias percebemos como ser profeta não é uma questão de honra, de privilégio. É uma missão que somos convidados a assumir. Missão importante, difícil, que faz balançar a cabeça.


Ter asas para fugir


A experiência do povo e de Jeremias ilumina o presente e o horizonte futuro. Vejamos o contexto que teve que enfrentar. O Capítulo 9 de Jeremias apresenta os desafios. Começa desejando ter asas para fugir longe: "Quem poderia dar-me no deserto um abrigo de viajantes? Então eu deixaria o meu povo e iria para longe deles". Qual pode ser o motivo para largar o compromisso? Jeremias continua o desabafo consigo e com Deus. "Todos são adúlteros, um bando de traidores. Esticam a língua como arco; o que manda no país é a mentira, e não a verdade. Pois eles saem de um crime para outro, e não me conhecem - Palavra de Javé. Cada um se cuide de seu próximo e não confie em nenhum dos irmãos, pois todo irmão engana o seu irmão, e todo amigo espalha calúnias... praticam a injustiça até se cansar. A língua deles é flecha envenenada: tudo o que falam é pura tapeação. Cada um fala de paz com seu próximo, mas no íntimo, está preparando armadilhas" (Jr 9, 1-7).


É a hora da prova dos profetas. É a hora de Deus. Como Elias, também Jeremias quer largar tudo. Não se sente melhor que os outros. Sente medo até. Não falava por falar. Era barra pesada. Ele confessa que deu um duro danado: "Falei 23 anos sem parar e vocês não me escutaram!" (Jr 25,3). Diante disso, queria mesmo fugir. Onde encontrar forças para continuar na missão?


A paixão que sustentou Jeremias


Jeremias comenta os fatos: "Do menor ate o maior, todos são ávidos de lucro! Do profeta ao sacerdote, todos praticam falsidade" (Jr 8,10). O Templo é usado para derramar sangue inocente (Jr 7,6). Há pessoas que seguem os costumes de outros povos, chegando a sacrificar os próprios filhos (Jr 7,31; 19,5) e depois vão para o Templo, invocando o Nome de Javé e dizem: "Estamos salvos!". Converteram o Templo num esconderijo de ladrões! As lideranças falam: "Paz!, Paz!" quando não há paz" (Jr 8,11). A Aliança estava quebrada (Jr 22,9). O povo era uma ferida só! A ferida de Jeremias era incurável (Jr 14,17).Sua tristeza é sem fim!


Jeremias, apesar de tudo, pensa e sonha numa época diferente, numa nova Aliança (Jr 31,31-34). O povo conhecerá Deus. Sente por dentro uma palavra forte (Jr 23,29), como um fogo devorador que nunca se apaga (Jr 20,9). Jeremias escuta uma palavra cheia de confiança. É Deus que lhe fala ao ouvido: "Vou fazer que a minha palavra seja um fogo na boca de você, e este povo seja a lenha que o mesmo fogo vai devorar" (Jr 5,14).


Jeremias experimenta a palavra de Deus como um martelo que tritura a pedra (Jr 23,29). E uma certeza para Jeremias: "Eu estou com você!". Essa experiência se torna fonte inesgotável de coragem, de alegria e de esperança (Jr 20,11-13). É um poço de liberdade e firmeza para cumprir a missão até o fim (Jr 1,8.18-19; 15,20).


Proclamar a esperança: "Vamos plantar!"


Na escola dos profetas encontramos fontes de esperança, pois eles descobriram grandes horizontes onde outros só encontravam becos sem saída. Há um exemplo muito lindo, na vida de Jeremias: O rei Nabucodonosor cercava Jerusalém. Jeremias está preso no palácio do rei de Judá. Hanameel, primo de Jeremias, precisa vender um campo em Anatot, a terra de Jeremias. Jeremias tem o direito de resgate. O direito é dele por herança. Mas nessa situação de guerra, como comprar um campo, se Nabucodonosor está tomando conta de tudo? Que maluco faria uma coisa semelhante? Jeremias, porém, viu que era isso que Deus queria! e decidiu. Foi e comprou o campo. Mostrou assim que havia esperança (Jer 32,1-15).


Essa história se repetia, quase ao pé da letra, alguns anos atrás em Uganda. No meio da guerra, os missionários e as missionárias viram-se forçados a parar. Não podiam visitar as comunidades e a casa parecia cair. Nessa situação de profunda frustração alguém convidou a pintar a casa, aproveitando algumas tintas esquecidas no térreo. O milagre aconteceu na hora. Por aquela cidade espalhou-se a notícia de boca em boca: "Amigos, a guerra acabou! Vamos plantar!"


Como Jeremias e aquela comunidade de Uganda, também nós estamos convocados a plantarmos esperança e alegria com as tintas da profecia, da justiça e da resistência escondidas no térreo das nossas vidas, pois Deus caminha conosco e diz para nós: "Eu estou com vocês!".

Justino Martínez Pérez


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